
Existe um tipo de arte que não apenas conta histórias, mas nos atravessa. Não exige que a gente entenda tudo de imediato, nem que racionalize. Ela pulsa, escorre, nos acerta onde a gente nem sabia que doía. Foi sobre isso que falei no vídeo de ontem: a arte que te afeta é também a que te agencia.
E ninguém me ensinou mais sobre isso nos últimos anos do que Taylor Swift no folklore.
O que é um agenciamento estético-afetivo?
“Espalhei minhas coisas por salas desconhecidas.” É com essa frase que Taylor Swift dá início a the 1, a primeira faixa de folklore, um álbum que se distancia do pop confessional de outrora e mergulha em histórias que, embora não sejam exatamente sobre ela, carregam sua assinatura afetiva em cada sílaba. Essa ambiguidade entre o que é seu e o que é do outro nos oferece uma chave potente para pensar o que, na esquizoanálise, chamamos de agenciamento estético-afetivo.
Agenciar, no vocabulário esquizoanalítico, é mais do que organizar elementos — é compor forças heterogêneas que se atravessam e criam algo novo. Um agenciamento estético-afetivo se dá quando a arte funciona como dispositivo de passagem: um meio por onde experiências, afetos e histórias se conectam, não apenas para serem representadas, mas para produzir subjetividades.
No folklore, Swift assume a voz de personagens que não são ela — Betty, James, Rebekah, o “último grande herdeiro da dinastia do oeste” — e os canta como se fossem. Mas ao fazer isso, não está apenas emprestando sua voz; está, na verdade, tecendo-se nesses outros, criando novas versões de si ao se deixar contaminar pelas dores, dúvidas e gestos dos personagens. Ela transforma essas histórias em fábulas afetivas, e o ouvinte, por sua vez, é capturado nesse jogo de espelhos, reconhecendo fragmentos seus em cada personagem inventado.
Esse movimento é, em termos esquizoanalíticos, um agenciamento coletivo de enunciação: uma fala que não é apenas individual, mas atravessada por multiplicidades. Taylor Swift torna-se uma superfície de inscrição de vivências que vêm de muitos lugares — ficcionais, históricos, íntimos ou mesmo coletivos — e que, reorganizadas esteticamente, nos permitem sentir e pensar de outras maneiras.
O que folklore nos ensina, portanto, é que reinventar-se não é apenas olhar para dentro, mas permitir-se ser atravessado pelo mundo, pelas histórias que não são suas, pelos afetos que você ainda não nomeou, pelos personagens que inventa e que, sem perceber, passam a carregar partes suas. Nesse gesto, a arte deixa de ser um espelho e torna-se uma máquina de reinvenção, um meio para escapar das formas prontas de ser e habitar outras possibilidades de vida.
Em tempos de identidades fixadas e discursos autocentrados, folklore nos relembra que somos também aquilo que contamos dos outros — e que há potência, beleza e resistência nesse contágio.
Narrar o outro para habitar a si
Ao narrar vidas que não são a dela, Taylor se reinscreve em novos corpos e situações, nos lembrando que a ficção é uma forma de verdade. Ou melhor: é onde algumas verdades só conseguem viver.
E esse gesto não é apenas literário. É clínico, é político, é sensível. Criar fábulas é também uma forma de suportar a própria história. Criar o outro é, muitas vezes, a única forma de não se abandonar.
Reinventar-se poeticamente
O folklore nos mostra que viver não é só contar a própria vida, mas poder modular a si mesmo em múltiplas narrativas. Isso não é fuga — é sobrevivência. É fazer da arte uma zona de passagem, onde posso me reinventar, me desfazer, me recompor.
É assim que a arte age como agenciamento estético-afetivo: não porque ela nos “representa”, mas porque nos reposiciona.
E você?
Qual foi a última vez que uma obra te moveu assim? Que te ofereceu uma linguagem que você ainda não tinha pra dizer de si?
Conta pra mim nos comentários.
E se você ainda não viu o vídeo, ele tá fixado no meu perfil. 🖤