Como Usar os Momentos de Ruptura para Produzir Transformação

Existe um momento em que tudo parece sair do lugar: as certezas vacilam, os desejos se embaralham, e algo nos convoca a fazer diferente — ou pelo menos a não fazer como antes. Chamamos isso de crise. E embora ela seja muitas vezes tratada como uma falha no percurso, na esquizoanálise ela é, na verdade, uma chance.
A crise como máquina de mutação
Segundo a esquizoanálise — proposta por Deleuze e Guattari —, o sujeito não é um ser fixo e pronto, mas um feixe de linhas em constante composição e transformação [1]. Somos feitos de fluxos: de desejos, de forças, de devires. A crise, nesse sentido, não é um colapso; é uma reorganização. É quando uma configuração subjetiva já não dá mais conta de sustentar a vida como ela está. Há excesso, há falência, há descompasso — e isso, longe de ser um fim, é a possibilidade de criação.
Mais do que isso: a crise é o ponto onde a vida pulsa com mais intensidade, pois ela faz ruir as repetições que anestesiam e nos devolve ao campo da diferença [2]. Como afirma Deleuze em Diferença e Repetição, é na repetição que surge a diferença real — a que cria, e não apenas varia. Ao repetir de forma diferente, ao viver de outro modo o que parecia dado, inventamos a nós mesmos [3].
O desejo é a força da crise
No plano esquizoanalítico, o desejo não é falta, como propôs a psicanálise tradicional, mas produção [1]. O desejo quer compor, quer experimentar, quer se desviar do que bloqueia seu fluxo. Crises não nascem de um acaso externo ou de um defeito interno: elas emergem quando há um desejo que já não cabe na organização atual da vida.
E é exatamente por isso que o terapeuta não está ali para “acalmar” ou “ajustar” o sujeito à norma. O papel da clínica esquizoanalítica é outro: fazer da escuta uma superfície onde a crise possa se tornar movimento. Cada relato, cada fato trazido em sessão, pode se tornar um analisador — isto é, um disparador de sentido, de estranhamento, de ruptura — que gere microacontecimentos capazes de deslocar o sujeito de uma posição já gasta [4].
Viver a crise enquanto diferença
Viver a crise não é se render a ela, mas aceitá-la como experiência. Ao contrário do que prega o discurso do “superar rápido”, a esquizoanálise propõe uma ética do mergulho: permitir que a crise nos afete, nos contamine, e gere um novo campo de possibilidades. Isso não significa perder o chão, mas encontrar outro. Um que não estava visível antes porque estava encoberto pela repetição cega.
É possível, portanto, modular a crise a partir da diferença, como propõe Deleuze: repetir, sim, mas de outro modo. Recolher do mesmo as variações que abrem novas composições de si, novas formas de viver, desejar e se vincular.
Uma nova ética da crise
Se encararmos a crise como uma falha a ser contida, a tendência será esquivá-la. Mas se a compreendermos como um evento de transformação, então o movimento muda. Em vez de temer o descontrole, passamos a cultivar um corpo mais sensível aos seus deslocamentos. Um corpo que aceita que viver é mutar. E que, como afirma Spinoza, não busca “vencer” os afetos, mas compor com aqueles que aumentam sua potência de existir [5].
Em tempos que vendem a estabilidade como sinônimo de saúde, talvez seja revolucionário aceitar que crise é também criação. Não para idealizá-la, mas para habitá-la com mais lucidez e menos medo.
📚 Referências
- Deleuze G, Guattari F. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora 34; 2020.
- Guattari F. Cartografias do desejo. São Paulo: Brasiliense; 1981.
- Deleuze G. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal; 2006.
- Rolnik S. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: N-1 Edições; 2018.
- Spinoza B. Ética. São Paulo: Martins Fontes; 2009.