
Quando falamos em autoconhecimento, muitas vezes pensamos em uma espécie de essência interior esperando para ser descoberta. Mas, sob uma lente esquizoanalítica, o autoconhecimento não é um mergulho para dentro, e sim uma cartografia: um mapeamento das múltiplas formas de ser que fomos, somos e podemos vir a ser¹.
Em vez de procurar uma identidade fixa, essa abordagem nos convida a investigar as linhas que compõem nossa existência — linhas duras que nos aprisionam, linhas de fuga que nos libertam e fluxos de desejo que nos atravessam. O autoconhecimento, nesse contexto, é uma ferramenta para nos tornarmos sensíveis às forças que nos constituem e nos atravessam no cotidiano.
Essa cartografia não serve apenas para entender o que somos, mas também para escolher o que queremos continuar sendo. Trata-se de uma prática ética: produzir modos de vida mais coerentes com aquilo que nos importa. Isso inclui reconhecer que não temos controle sobre tudo — mas que podemos sim interferir, modular, construir diferenças e compor futuros com o que nos atravessa agora².
Autoconhecer-se, portanto, é criar. Criar sentido. Criar história. Criar uma narrativa de si que esteja menos à mercê das normas que nos disseram naturais. É produzir uma história que nos caiba e nos expanda. É deixar de apenas reagir à vida e começar a habitá-la com mais presença.
Se você já sentiu que está “vivendo no automático”, pode ser que seja hora de parar e cartografar. Quem você foi até aqui? O que ainda faz sentido manter? Que possibilidades você tem deixado passar por acreditar que não pode ser diferente?
Como disse Guattari, não se trata de “voltar a si” ou “se encontrar” — mas de se produzir em meio ao caos das forças que nos compõem³. E esse trabalho não precisa ser solitário. Pode ser clínico, político, coletivo. Pode ser uma dobra no tempo que transforma a relação consigo, com os outros e com o mundo.
Referências:
1. Rolnik S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade; 1989.
2. Deleuze G, Guattari F. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São Paulo: Editora 34; 1995.
3. Guattari F. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34; 1992.